PATRÍCIA PORTELA
VENCE GRANDE PRÉMIO DE ROMANCE E NOVELA APE|DGLAB — 2025
O júri da 44.ª edição do Grande Prémio de Romance e Novela APE|DGLAB, coordenado por José Manuel de Vasconcelos e constituído
por Ana Paula Arnaut, Cândido Oliveira Martins, Helena Carvalhão Buescu, Maria de Lurdes Sampaio e Salvato Teles de Menezes,
deliberou atribuir, por maioria, o Grande Prémio à obra Manual para andar espantada por existir (Caminho), de Patrícia
Portela.
A obra foi escolhida com os votos de Ana Paula Arnaut, Helena Carvalhão Buescu e Maria de Lurdes Sampaio. Os jurados Cândido
Oliveira Martins e Salvato Teles de Menezes votaram na obra O fim dos Estados Unidos da América – Epopeia, de Gonçalo M.
Tavares (Relógio d’Água).
Como fundamentação pode ler-se na acta: «... Manual para andar espantada por existir é uma belíssima homenagem e,
simultaneamente, um notável exercício de escrita e de imaginação. Romance de estrutura complexa, bem urdida e surpreendente,
revela uma agilidade que transborda dos limites da ficção dita clássica e uma extraordinária capacidade de fazer dialogar, com ironia
e liberdade, diferentes tradições literárias, do romance inglês setecentista e de Saint-Exupéry até, entre nós, Almeida Garrett e o
espírito surrealista. Mas é sobretudo na aparente e comovente simplicidade com que aborda questões profundamente filosóficas que
o livro encontra a sua singularidade. Através do espanto perante o quotidiano, Patrícia Portela transforma o olhar e a atenção em
formas de pensamento, interrogando o que significa existir e como nos relacionamos com o mundo. É um livro leve e
simultaneamente denso, que nos convida a recuperar a capacidade de estranhar aquilo que a habituação tornou invisível, mostrando
que a filosofia pode também nascer de gestos simples, da linguagem e da disponibilidade para nos maravilharmos com o facto de
estarmos vivos. É justamente a partir desse exercício de atenção e de estranhamento que Patrícia Portela revisita José Gomes
Ferreira, fazendo da sua escrita matéria viva de um romance que olha simultaneamente para o passado e para o presente. Ao
recuperar essa voz, a autora não se limita a prestar homenagem ao criador de João Sem Medo: fá-la dialogar com o nosso tempo,
reescrevendo a história do medo e da coragem no nosso mundo, e para o nosso mundo. E é nessa passagem do passado ao
presente que o romance encontra uma das suas maiores forças: as palavras de então reaparecem hoje com uma perturbadora
atualidade. Adequando ao contexto palavras de Eduardo Lourenço escritas há sessenta anos, o resultado é uma “prevista-imprevista
torrente de prosa nova, sem frio nos olhos, livre até da obsessão da liberdade, supremamente desenvolta, através da qual não se
contesta isto ou aquilo, apenas, mas um comportamento orgânico que, sob os nossos olhos, se desarticula; a falsa sublimidade de
uma Ética que era uma máscara e que, nessas páginas, nos aparece como o que é: puro caos de valores, cobrindo a custo a nudez
implacável dos ‘interesses criados’ e a desordem profunda da ordem sacrossanta”. Passadas seis décadas, estas palavras revelam-se
hoje mais pertinentes do que no momento em que foram escritas, como se o tempo, em vez de as tornar obsoletas, lhes tivesse
conferido uma nova e inquietante capacidade de interpelar o presente. É nessa extraordinária capacidade de fazer da memória
matéria de criação, do espanto uma forma de pensamento e da literatura um modo de interrogar o nosso tempo que Manual para
andar espantada por existir se afirma como uma obra singular e Patrícia Portela como uma das grandes vozes da literatura
hipercontemporânea portuguesa.»
Pode ainda ler-se na referida acta a declaração de voto do jurado Salvato Teles de Menezes, que como se disse, votou no romance O
fim dos Estados Unidos da América – Epopeia, de Gonçalo M. Tavares: «… O meu voto para a atribuição do Grande Prémio de
Romance e Novela APE/DGLAB - 2025 recai em O Fim dos Estados Unidos da América, de Gonçalo M. Tavares, por considerar que,
entre as obras apreciadas, é aquela que mais plenamente conjuga ambição literária, invenção formal, densidade conceptual e
capacidade de interrogar criticamente o presente.
A representação de um país atingido pela peste ultrapassa largamente, neste romance, a narrativa de uma catástrofe sanitária. A
peste constitui um dispositivo de desorganização da ordem social, política e cultural, através do qual se tornam visíveis as
contradições de uma sociedade marcada pela desigualdade, pela polarização política, pela violência, pela concentração do poder e
pela fragilidade das instituições. O «fim» anunciado pelo título deve ser entendido menos como o desaparecimento literal dos
Estados Unidos que como a crise de um determinado modelo de organização social e política e, num sentido mais amplo, de uma
determinada representação do mundo.
É neste ponto que o romance revela uma das suas qualidades maiores: a crise não constitui apenas o tema, determina igualmente a
própria forma da narrativa. Não existe um ponto de vista único e estabilizador, uma vez que a representação se desloca
continuamente entre posições espaciais, temporais, psicológicas e ideológicas diversas: passa-se da experiência particular das
personagens à percepção mais ampla do colapso colectivo, do presente americano a referências míticas e trágicas, de uma posição
ideológica a outra.
A instabilidade da perspectiva narrativa torna-se o equivalente formal da instabilidade do universo representado. A fragmentação
das personagens, das vozes e dos pontos de vista não constitui mero expediente estilístico: reproduz a dificuldade contemporânea
de apreender uma sociedade complexa como totalidade. A catástrofe é aquilo que acontece no romance, mas é também, em certa
medida, aquilo que a própria estrutura do romance obriga o leitor a experimentar.
A esta dimensão acrescenta-se a extraordinária riqueza do universo simbólico construído por Gonçalo M. Tavares. Os Estados Unidos
surgem como um espaço em que diferentes linguagens e códigos (políticos, científicos, económicos, tecnológicos, míticos e culturais)
entram permanentemente em contacto e conflito, daí que a fronteira assuma uma importância particular. Não apenas a fronteira
territorial entre os Estados Unidos e o México, mas também as fronteiras entre ricos e pobres, centro e periferia, ciência e mito,
humano e não humano, ordem e caos. Todas elas se revelam permeáveis. Figuras como La Rosa ou Tirésias acentuam essa
circulação entre espaços, tempos, identidades e códigos, mostrando como aquilo que uma sociedade procura manter nas suas
margens pode regressar para perturbar e transformar o próprio centro.
É desta convergência entre dimensão histórica, invenção formal, densidade simbólica e fôlego narrativo que resulta, a meu ver, a
singularidade de O Fim dos Estados Unidos da América. Gonçalo M. Tavares não se limita a imaginar o colapso de uma potência
contemporânea: constrói uma forma narrativa capaz de fazer o leitor experimentar a própria dificuldade de compreender esse
colapso. O romance torna-se, simultaneamente, alegoria histórica, experiência formal e laboratório de significações.
Entendo, por conseguinte, que O Fim dos Estados Unidos da América deve ser distinguido com o Prémio, pois trata-se de uma obra
de excepcional ambição formal e narrativa, que reinventa elementos da tradição épica para construir uma sátira distópica do
presente e faz da desagregação política, social e simbólica de uma potência uma reflexão mais vasta sobre a violência, o
extremismo, a utopia e a fragilidade das civilizações. Entre a prosa e a poesia, a tragédia e o grotesco, o mito e a actualidade,
Gonçalo M. Tavares constrói uma obra singular, de grande fôlego, cuja invenção literária excede largamente a circunstância histórica
que lhe serve de matéria.
Quero, todavia, assinalar ainda o mérito de Manual para andar espantado por existir. É uma obra de manifesta originalidade, cuja
aparência lúdica não deve ocultar a gravidade da interrogação que a sustenta. Nela, a literatura parece continuar a justificar-se pela
capacidade de devolver às coisas, ainda que por instantes, a estranheza que possuíam antes de serem nomeadas. A sua natureza
experimental, a liberdade da construção e a singularidade dos procedimentos utilizados tornam-na, porém, a meu ver,
particularmente adequada a uma distinção especificamente orientada para a inovação literária, pelo que, sem alterar a
fundamentação do meu voto, deixo qui essa nota elogiosa ao romance de Patrícia Portela.»
O Grande Prémio de Romance e Novela APE|DGLAB destina-se a galardoar, anualmente, um livro de carácter romanesco ou
novelístico, escrito em português e da autoria de um autor português. Foi instituído em 1982 pela Associação Portuguesa de
Escritores e é actualmente patrocinado pela Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, Câmara Municipal de
Grândola, Fundação Calouste Gulbenkian e Instituto Camões.
O Grande Prémio tem um valor monetário de 15.000 euros e foi já atribuído a 33 autores.
A cerimónia pública de entrega do Grande Prémio de Romance e Novela APE|DGLAB — 2025 será oportunamente anunciada.